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title: "Código na mão acabou. Pra quem pode pagar"
description: "O DHH disse que a 37signals parou de escrever código à mão. Eu também parei. A diferença é que ele usa modelo de ponta sem olhar a fatura, e eu ganho em real."
pubDate: 2026-10-17T00:00:00.000Z
author: "Brimmar"
lang: "pt-BR"
canonicalUrl: "https://brimmar.dev/blog/codigo-na-mao-acabou-pra-quem-pode-pagar/"
tags: ["ai", "rust", "dhh", "bun", "pay-to-win"]
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# Código na mão acabou. Pra quem pode pagar

O DHH tem razão. Escrever código à mão deixou de ser o normal, e a linguagem que importa agora é a natural. Eu não tenho autoridade nenhuma pra discordar disso, porque faz meses que eu não escrevo um arquivo inteiro na mão.

Na keynote da Rails World ele disse que a 37signals está ["pencils down"](https://aimagazine.blog/dhh-says-37signals-is-pencils-down-on-hand-written-code-and-rebuilding-hey-in-rust-at-rails-world-2026/) e que código escrito à mão virou "an exceptional state". Se o agente erra, você conserta o agente e deixa o lápis na gaveta. O HEY novo sai com seis apps nativos e backend em Rust, que ele chamou de a linguagem mais feia dos últimos 40 anos e disse que ama, desde que quem escreva seja o agente.

Um ano atrás eu escrevia quase tudo na mão. Eu sempre acompanhei essa tecnologia de perto e tentei tirar o máximo dela, e justamente por conhecer as limitações eu não confiava. Essa leva nova mudou isso. Os 5.5 da Anthropic, o GPT-6.1 Sol e o GPT-6 Astra estão absurdos. Ainda fazem coisa errada, mas na maior parte dos casos eu já confio que eles se viram. Hoje praticamente 100% do meu código passa por IA. Ainda reviso tudo e mando refazer bastante coisa, e não me acho bom nisso. Já [escrevi](/blog/a-reescrita-em-rust-e-a-era-do-pay-to-win-explicito) que o artesão virou arquiteto. O DHH só disse a mesma coisa de cima do palco do framework que ele mesmo criou.

## O que eu concedo

Os números do HEY em Rust (99% menos CPU, 95% menos memória, o pico inteiro rodando num Raspberry Pi) são [do próprio DHH](https://aimagazine.blog/dhh-says-37signals-is-pencils-down-on-hand-written-code-and-rebuilding-hey-in-rust-at-rails-world-2026/), de um software que ainda não foi lançado, e ele mesmo chamou a conta do Raspberry Pi de "back-of-the-envelope". As 150 mil linhas que ele diz ter produzido só em agosto também não têm como ser auditadas por ninguém de fora.

Mesmo assim eu não acho que ele esteja inflando o resultado pra vender alguma coisa. Ele contou o fracasso junto: os designers fizeram as últimas features do Basecamp 5 com agente, uns 20 ou 30 PRs deixaram a arquitetura, nas palavras dele, "like a Swiss cheese", e o Basecamp 5 saiu com bastante código escrito à mão. A conclusão dele foi que recuar dos agentes seria a lição errada, e nisso eu concordo.

E ele não está sozinho. O Guillermo Rauch, da Vercel, que vive de vender JavaScript, escreveu sem rodeio:

<blockquote class="twitter-tweet"><p lang="en" dir="ltr">DHH is fundamentally right about Rust. For context, Vercel has been undergoing a Rust-ification (carcinization, technically 🦀) for a while.</p>&mdash; Guillermo Rauch (@rauchg) <a href="https://x.com/rauchg/status/2106863842450133114?ref_src=twsrc%5Etfw">October 4, 2026</a></blockquote>

Rust ganha pelo motivo que eu [já defendi](/blog/nao-e-mais-meu-problema): o compilador vira o policial do agente. Se ninguém precisa achar a sintaxe bonita, ganha a linguagem que pega o erro do modelo antes de ir pra produção.

## O Bun é prova, mas só em parte

O [Bun saiu de Zig pra Rust](/blog/a-reescrita-em-rust-e-a-era-do-pay-to-win-explicito) com agentes e por volta de US$ 165 mil em tokens. Isso prova que a fábrica de agentes funciona, mas o Bun tinha a Anthropic por trás, uma suíte de testes gigante e acesso a um modelo que o resto do mundo ainda nem podia usar. Dá pra estudar e testar em projeto meu, só não dá pra tratar como receita.

## O buraco: a conta

Aqui eu paro de concordar. O DHH fala de um lugar onde token não pesa no orçamento do mês, e eu moro bem longe dele.

O argumento mais comum agora é que o preço caiu. Em três dias, [Claude Sonnet 5.5, GPT-6.1 Sol e Gemini 4 Argon saíram pelo mesmo preço](https://alexwrites.fr/en/ai-news-october-2-2026): US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 10 de saída. Só que a briga foi pra outro lugar. O Argon ficou restrito a uns 650 profissionais de segurança, e esse preço é introdutório, depois vai pra US$ 4/20. A OpenAI lançou o modo Ultrafast, que custa 6 vezes mais pra ir mais rápido, e um plano Pro de US$ 500 por mês que inclui esse modo. Os agentes sempre ligados dela começam no plano de US$ 100. O preço da tabela empatou, mas a velocidade e o acesso viraram o produto caro.

Eu assino Grok, OpenAI, Google e Claude, todos no plano de US$ 20, e a ideia é ficar com um ou dois. Em real, isso já pesa. Nois é pobre. Eu uso modelo mais fraco e mais barato, e isso tem um custo que não aparece na fatura e sai do meu tempo, em revisão e retrabalho.

Do outro lado tem o Theo. Ele trocou o slogan do T3 Code:

<blockquote class="twitter-tweet"><p lang="en" dir="ltr">New branding for T3 Code: &quot;We burned the tokens so you don&#39;t have to&quot;<br><br>We&#39;ve probably burned $10m+ in tokens collectively just contributing to T3 Code</p>&mdash; Theo - t3.gg (@theo) <a href="https://x.com/theo/status/2106502980270997821?ref_src=twsrc%5Etfw">October 3, 2026</a></blockquote>

Ele não pagou dez milhões de dólares pra Anthropic. Esse número é o valor dos tokens pelo preço de tabela, somando o que todo mundo que contribui com o projeto gastou, e é estimativa dele ("probably"). O dinheiro que de fato saiu do bolso é outro. O Theo vive em assinatura. Ele [conta](https://x.com/theo/status/2104683186215363058) que uma assinatura de US$ 200 do Claude Code rende uns US$ 9 mil de uso do Opus por mês, se você fizer a conta pelo preço da API. Diz que tem ["6+ accounts"](https://x.com/theo/status/2106199873238528275), que o plano Max é ["an absolute steal"](https://x.com/theo/status/2104079585956761814) e que o preço da API é ["insane"](https://x.com/theo/status/2104080649938452770). Pra mim a divisão é simples: API é pra integração, pra quando você vai vender um produto. Se o software é seu e só você vai usar, a assinatura resolve.

Nisso ele tem razão, e eu preciso ajustar o meu argumento. Assinatura é muito mais barata que token de tabela. Ele chama o Claude Code e o Codex de ["subsidized"](https://x.com/theo/status/2103729314965631463), embora ele mesmo [ache](https://x.com/theo/status/2104702526142726294) que os labs ainda lucram com a maioria dessas assinaturas. Eu mesmo vinha comparando o frontier pelo preço por milhão de tokens, e essa conta está errada.

O subsídio só não resolve o meu problema. Pra usar US$ 9 mil por mês de Opus, primeiro você precisa pagar US$ 200 por mês. Pra queimar limite como o Theo queima, precisa de várias dessas. Ele comemorou ter [esgotado 4 contas do Claude](https://x.com/theo/status/2106502358834479502) numa semana. Eu não sou rico pra ter quatro contas no plano top de nada. Eu tenho quatro contas de US$ 20 e estou pensando em cortar duas.

E eu ainda estou no lado bom dessa conta. Consigo pagar dois planos. Tem muita gente que não paga nem um. E mesmo com dois, tenta montar um negócio só com planos de US$ 20. O limite acaba no meio da semana, você espera resetar, troca de modelo, revisa mais. Dá pra aprender assim. Competir com quem tem seis contas no plano top já é outra história. E o empreendedor brasileiro ainda leva aperto do outro lado, porque o mercado de vender software também está encolhendo. Escrevi sobre isso em [software pra uma pessoa só](/blog/software-pra-uma-pessoa-so-e-quem-vai-fazer-o-seeding).

O preço por token caiu e o plano de cima é um ótimo negócio, mas o desconto só chega pra quem já pode pagar o plano caro, de preferência várias vezes. Volume continua sendo privilégio.

## Escrever ficou barato, manter continua caro

Uma semana depois, o Theo levou bronca por dizer que provavelmente não vai manter a reescrita do TypeScript em Rust:

<blockquote class="twitter-tweet"><p lang="en" dir="ltr">I really don&#39;t get why people are mad at me saying I am &quot;probably not&quot; going to maintain the ts-rust rewrite.<br><br>I am being honest. I am trying to maintain it, but I also have to run 3 companies and manage a project with half a million users.<br><br>Would you prefer I lie?</p>&mdash; Theo - t3.gg (@theo) <a href="https://x.com/theo/status/2108486588271607991?ref_src=twsrc%5Etfw">October 9, 2026</a></blockquote>

Prefiro a honestidade dele, e ela mostra bem o limite do "pencils down": o agente escreve um TypeScript inteiro em Rust, mas alguém precisa responder por ele daqui a um ano, e o salário dessa pessoa não sai do bolso da Anthropic.

O próprio Omarchy deixa essa divisão no papel. O DHH [lançou um bug bounty de US$ 100 mil](https://omarchy.org/news/2026/10/omarchy-launches-bug-bounty-program-on-hackerone/) no HackerOne, e pelas [regras do programa](https://devgrantsdaily.com/items/2026-10-02-omarchy-bug-bounty-hackerone/) achado gerado por IA sem checagem manual e sem prova de conceito funcionando não ganha nada. Não vejo hipocrisia nisso, porque todo projeto que já se afogou em relatório de IA aprendeu a mesma coisa. O agente varre, o humano assina embaixo, e o dinheiro do bounty vai pra quem assina.

## O Primeagen virou a casaca

O Primeagen passou anos como o cético de plantão da IA. Em setembro ele [entrou no Omarchy Core](https://omarchy.org/news/2026/09/theprimeagen-joins-omarchy-core/) pra liderar o QA com agentes, usando o Oligarchy, um harness que sobe o Omarchy em VMs e deixa agente digitar e clicar como gente.

<blockquote class="twitter-tweet"><p lang="en" dir="ltr">Thrilled to announce that @ThePrimeagen has joined Omarchy Core to lead Agentic QA. His new Oligarchy harness will soon be vetting all our upcoming releases using @digitalocean droplets, which will host agents running on our @AIatMeta tokens. Full cricle!</p>&mdash; DHH (@dhh) <a href="https://x.com/dhh/status/2103880596841783698?ref_src=twsrc%5Etfw">September 26, 2026</a></blockquote>

Se até o Primeagen está botando agente pra testar a distro do DHH, acho que a confiança nesses modelos chegou num ponto que pouca gente esperava. Comigo foi parecido: continuei usando tudo que dava, esperando o modelo chegar num ponto em que eu pudesse confiar. Quando chegou, fui com o que cabe no meu cartão.

O DHH está certo sobre o ofício, e eu também larguei o lápis. Mas enquanto modelo de ponta e manutenção forem cobrados em dólar, largar o lápis do jeito que ele largou vai continuar sendo coisa de quem pode pagar.
